14.1.09
Como sempre, Bonde do Rolê, algumas músicas “indies” famosas, uns electros chatíssimos e repetitivos com mulheres cantando, e aquela banda que agora parece que toca em todo lugar, o Ting Tings. Passa até na propaganda do canal infantil que a minha irmã assiste. E estava na trilha de uma novela da Globo, não estava? Eu assisti o clipe de uma das músicas e até achei legal, mas a música em si é tão enjoativa. Talvez se eu não tivesse a impressão de já ter ouvido igual em mil lugares diferentes, eu ainda gostasse, mas não é o caso.
Ok, ok, não é fácil para as bandas serem inovadoras hoje em dia e boa parte das coisas de que eu gosto é tão batida quanto essa banda. E não dá para colocar uma música muito incrível para o povo dançar, algumas pessoas podem ficar desorientadas (não que alguém realmente dance, a maior parte parece que só fica parada, balançando a cabeça e conversando a gritos por cima do som da música). Eu sei que é difícil para os DJs variarem muito o que colocam para tocar, que o emprego deles está em risco então não dá para ousar muito, e que o povo não dança o que não conhece... (Sim, até o povo metido a conhecer coisas “underground” acaba se rendendo ao pop.) Mas eu realmente cansei. Talvez eu deva procurar novos lugares. É aquilo, numa cidade com 3 milhões de habitantes TEM que ter alguma coisa que preste. Mas ah, eu queria desabafar aqui. Não faz mal, faz?
1.12.08
"Se fosse para encontrar Deus, não ficava nesse sol."
Me disseram que uma velhinha, ao ver a fila para o terceiro dia do 53HC Fest deste ano, disse a frase do título. Muita gente concorda, mas não eu: como atéia, o mais próximo de uma experiência religiosa que eu posso ter é a que se tem em um show de Rock (no caso desse festival, com maiúsculas mesmo). Seja o Deus da Bíblia, seja Satã, seja o Deus do Rock, seja o que for, há algo de divino que se encontra na escuridão, com as guitarras gritando no fundo, os corpos se chocando e o suor escorrendo. Nos três últimos dias, eu passei perto do nirvana.
Sexta-feira, Bar Brasil, BH.
Cheguei atrasada (perdi Dilúvio e Do It Yourself) e encontrei uma fila enorme, do tipo que não só é comprida o suficiente para chegar na outra ponta do quarteirão como ainda é larga o suficiente para ocupar o passeio todo. Quando entrei, o Enne estava passando o som. Eles foram até legaizinhos (no show, como de costume, fica bem mais pesado do que ouvindo pelo myspace) mas, embora não desse para entender direito as letras, me deu muita sensação de que aquilo era emo demais. Acabou cansando depois de um tempo.
Crossfire é bem pesado, e foi bom. O vocalista começou a incentivar a galera a moshar (não lembro se foi ele ou uma das bandas seguintes que mandou o povo fazer um paredão da morte, mas ele realmente incentivou a mosh). Infelizmente, ainda durante o show deles, rolou uma briga bem no meio da platéia. Os caras mandaram parar, segurança foi lá no meio, e o divertido de sempre, o vocalista falando "Peraí, segurança, também não é assim." Me lembra o show do Rockfellas, em que os caras reclamaram da agressividade dos seguranças contra os fãs que subiam no palco. Acho que, como todo mundo que tem banda já esteve na platéia, a antipatia natural por seguranças continua depois que se passa ao palco.
Ainda sobre mosh, é legal ressaltar que desde que eu cheguei já havia umas bem grandes e boas. Em todos os dias teve, desde muito antes das bandas principais. Aliás, dá para escrever um artigo sobre as diferenças nas moshs dos diferentes tipos de público. Cada um dos três dias de 53HC, com suas bandas completamente diferentes, teve moshs muito diferentes. Algumas boas para meninas como eu entrarem, outras, como as do primeiro dia, não.
Aí veio aquela que, para mim, foi a melhor banda da noite: a Cervical. Bem pesado e divertido, o vocal é gutural o que atrapalha para entender as letras (que, estou olhando aqui, são boas também), mas foi muito bom. E o vocalista dança de um jeito muito mau, dando socos no ar e pulando loucamente. Bem engraçado.
A banda seguinte foi a Confronto, que já tem uma década de estrada. O vocalista em certa altura falou que, no primeiro 53HC Fest, eles foram a primeira banda a tocar e pediram pro Bart pô-los mais para frente e que o cara disse "Não dá, vocês são muito ruins!" Paia, paia. Dessa vez, foram a última banda antes de Dead Fish, a banda mais famosa dos três dias de festival. Acho que está bom, né? É legal, tem gutural em português, é bem mau. O único problema é que todas as músicas se parecem muito. Depois de um tempo cansa. Ah, observação: o vocalista do Confronto estava com uma camiseta da Cervical.
Finalmente, a banda da noite: Dead Fish. Eu que não sou fã da banda, conhecia três músicas que um amigo meu me mostrou no dia, e não sei nada de nada, achei bizarríssimo a galera gritando "Ei, Dead Fish, vai tomar no cu!" Estava me perguntando o porquê de tanto ódio quando descobri que era na verdade uma demonstração de afeto e carinho. Esse povo estranho... (Obs.: O vocalista estava com a camiseta do Confronto.)
Foi legal, abriram com A Urgência, uma das três músicas que eu conhecia. Quase consegui cantar junto. A galera enlouqueceu mais ainda, de uma mosh gigante no show todo, e foi bem legal. Um monte de gente subiu no palco e fez stage diving, o que é incrível considerando o espaço entre o palco e a platéia. No fim das contas um cara acabou se machucando.
O show acabou por volta das 3h da manhã.
Sábado, Lapa, BH.
Deveria começar às 20h, mas atrasou até às 22h, o que foi uma sorte porque eu queria ver as primeiras bandas e atrasei muito. Não estava muito cheio, especialmente considerando como estava no dia anterior. Me disseram que mais cedo apareceram uns skinheads e bateram num punk, que acabou sendo levado pelo SAMU. Isso deixou o clima meio tenso...
Abriu às 22h e a primeira banda foi o Manolos Funk. Estava meio sem graça porque a banda não tinha nada a ver com as outras do dia (eles me lembraram um pouco Mundo Livre S/A...) e a casa ainda estava muito vazia. Tinha bastante gente, o suficiente para lotar A Obra e outros lugares do tipo, mas como o Lapa é grande, a sensação de vazio acaba incomodando.
A banda seguinte foi o Carolina Diz. Bem animado e barulhento, fizeram uma jam ou algo do tipo que foi genial! Eu fiquei curiosíssima para saber que distorção o guitarrista usava, que deixava o instrumento com um som muito surreal. Para a última música eles chamaram o vocalista da Cinza para cantar junto. Meio engraçado porque era um menino novinho e a Carolina Diz tem um povo mais velho. (Sobre a Cinza, é preciso dizer que eles iam dar um show no mesmo dia à tarde na Praça da Liberdade e, embora eu até tenha visto o cara lá, não rolou nada. Ainda quero saber porquê.)
A primeira vez que eu vi The Folsoms foi no Expocachaça desse ano. Eu achei uma dó porque eles eram muito bons e o pouco público assistindo estava super sem graça. Eu e minhas amigas fomos dançar e enlouquecemos lá, e pouco tempo depois eu tive outra oportunidade de vê-los quando eles abriram para o show do Matanza (ou seria do Canastra? não lembro mais). Uma coisa que me deixa muito feliz é que a cada show que passa, a platéia fica mais animada e mais louca. Não dá nem para comparar o desânimo do povo na Expocachaça com a galera pedindo "mais um" nesse 53HC, com o vocalista tendo que explicar que não podia tocar mais... Só esse show já valia metade do meu passaporte de três dias do festival.
A banda seguinte foi Sapatos Bicolores, pela qual eu nutria uma certa curiosidade desde o Porão do Rock deste ano (quando perdi o show deles), mas acabei vendo só a primeira música. Vestibular da UEMG no domingo, não dava para ficar até o fim no sábado. Uma pena. Além de perder a maior parte das músicas dessa banda, ainda perdi o Canastra (que já vi um show esse ano), o Inocentes (que nunca vi) e Sick Sick Sinners, que todo mundo me disse que era ótimo, e que eu me arrependeria muito se não visse. Bem, já era, tomara que venham em BH mais vezes...
(Comentário: acho que repetiram a discotecagem do dia anterior. Nos dois dias tocou Ace of Spades do Motorhead, California Uber Ales do Dead Kennedys e um punk cover de Ricky Martin.)
Domingo, Armazém 841, BH.
Pensei que ia perder tudo porque só consegui chegar às 18h, mas o show começou com três horas de atraso, então pude ver a maioria das bandas. Perdi só Severa e The Junkie Dogs. Cheguei quando Irônika estava tocando e, nossa, não sei dizer exatamente o que eu gostei deles, mas gostei muito! É uma banda que pretendo ver mais vezes.
O lugar estava muito cheio, mas o lugar é gigantesco. Foi engraçado que o público dos três dias era composto só por gente "estranha", mas cada dia era em um sentido diferente. Esse foi o dia em que tinha mais gente de preto, acho. Me senti uma paty no meio daquela galera, e é muito raro eu me sentir assim.
Lobotomia foi pesado demais pro meu gosto. Muito metal, sem ser realmente metal. Já Madame Saatan foi bom. Eu já tinha ouvido falar muito da banda, e eles tocam bem, mas não é aquela coisa especial e diferente. Tenho certeza de que a fama que tem é porque a vocalista (única mulher que subiu no palco nesse 53HC, infelizmente) é muito gostosa. Bando de homens tarados. Aposto que ficam distraídos demais com ela para reparar, por exemplo, nas caras hilárias que o baixista faz.
Uma parte do povo que eu conhecia e que foi queria ver era DFC. Não achei tão especial assim, mas devo admitir que são engraçados. Tocaram a genial Vai Se Fuder no Inferno. A letra é linda, super poética.
O momento metal da noite veio com Chakal. Eu conheço o vocalista e até então nunca tinha visto show da banda, então para mim foi um choque ver o senhor bonzinho e simpático subir no palco e se transformar em um cara mal e terrível. Ótimo. Tinha gente que sabia cantar as músicas, e entre elas a galera ficou gritando "Chakal, Chakal!", "Chakal from hell!" e "olê olê olê, Chakal, Chakal!" e outras coisas do tipo. Bem divertido. Imagino que não preciso dizer que as moshs (que estavam rolando desde que cheguei também) nesse ponto estavam realmente perigosas, com uns caras muito maus e grandes socando e balançando os cabelos longos.
E finalmente começou Matanza. Nesse ponto, o povo já estava indo à loucura. Mas foi um show igual a todos os outros deles, com as mesmas músicas e as mesmas piadas infames - a maioria das quais era sobre o pobre coitado do baixista. Sou fã de Matanza, inclusive, foi a única banda que eu não sabia cantar apenas uma música, mas todas. Logo, se eu disser mais do que isso, seria tendenciosa.
Acabou tudo pouco antes da 1h da manhã. Mas meu corpo e, em especial, meu pescoço (maldita idéia de tentar fazer headbanger) está doendo até agora...
Mal vejo a hora de chegar ano que vem com o próximo 53HC Fest. Vai ter mais, certo? Só espero que a escolha das bandas continue tão eclética quanto, mas inclua mais mulheres. Como mulher, me incomodou um pouco só ver a moça do Madame Saatan. E parece que não tinha nenhuma outra nas bandas que perdi...
E enquanto isso não acontece, vamos curtindo o resto do que há por aqui. É aquela história, "só um idiota completo morre de tédio". E, se lhe falta farra, tem Festival Garimpo vindo aí, com Superguidis sábado dia 13 no Lapa!
7.2.07
Algum tempo atrás, o mundo descobriu o Mars Volta. Não sei o que despertou o interesse de tantas pessoas por uma banda tão alternativa e diferente, mas alguma coisa o fez. Em mim, no entanto, não houve esse despertar. É um defeito meu, mas eu não tenho muita paciência para as faixas de sete ou oito minutos de suas músicas, e não vejo graça em faixas como The Widow, que não me parece tradicional apenas por seu comercial formato de três minutos e meio de duração, mas por algo mais na música mesmo, que eu não sei o que é. Soa como algo que eu já ouvi em milhares de lugares diferentes, em milhares de versões diferentes. Mas talvez fosse essa a intenção. E mesmo que não fosse, minha intenção não é falar de Mars Volta.
Se não quero falar dessa banda, então por que comecei falando dela? Porque o sucesso do Mars Volta serviu para aumentar o sucesso de outra banda: o At The Drive-In. Quando eu vi em algum lugar que o Cedric Bixler Zavala e o Omar Rodriguez-Lopez tinham outra banda antes de virem para a banda marciana, eu já havia ouvido falar do ATD-I, mas só então resolvi dar uma chance e ouvir as músicas do grupo.
Uma das minhas primeiras foi o clássico One Armed Scissor. E posso dizer: não é à toa que este um dos singles mais famosos deles. É muito, muito bom. Bem mais hardcore que qualquer coisa que o Mars Volta, bastante divertida e animada, e com uma letra bastante criativa, do jeito que eu gosto.
Daí, foi um passo para baixar todo o This Station Is Non-Operational (aliás, pesa na consciência não baixar música deles, mas se eu não baixasse, não teria vontade de comprar algum CD). Essa coletânea foi lançada depois que a banda acabou, com as músicas selecionadas pelos músicos, e é ótima para quem quer dar uma primeira olhada no trabalho da banda. Nela, dá para ver claramente o quanto eles eram talentosos e versáteis. Ao contrário de muitas bandas atuais (muitas das quais de sucesso, mas não vou citar nomes) eles fazem várias músicas, e não uma só com letras diferentes ou um acorde a mais e outro a menos. O que significa que, sim, nem todas as músicas são como One Armed Scissor, mas isso está longe de ser um defeito.
Enfim, não vou discorrer sobre toda a discografia da banda. Até porque vai ser mais divertido se vocês descobrirem algumas coisas por conta própria e formarem sua própria opinião, não é? Mas só para terminar, eu gostaria de comentar algumas coisas sobre o estilo do ATD-I, para quem está se perguntando “Mas essa porcaria é Rock? Punk? Hardcore? Dream-pop?”. A banda é, assumidamente, emo. Sim, emo. Mas não emo como essas coisinhas pop chorosas que hoje chamam de emocore. Emo como o Fugazi, banda do straight-edge Ian McKaye, ex-Minor Threat. Emo como as bandas de post-punk da década de 80 – mesmo sendo da década de 90. Enfim, emo como é emo uma banda que acabou antes da modinha começar.
Abra a cabeça e ouça At The Drive-In.
Leia ouvindo:
At The Drive-In - One Armed Scissor